Como Limeira age na conservação rural das estradas e nascentes de água

Limeira está obtendo bons resultados com o trabalho de detenção das águas em bacias ao longo das estradas rurais. Em pouco mais de 7 anos, o número de bacias saltou de 250 para mais de 1.100.

Além da conservação das vias rurais, o trabalho gera recuperação do lençol freático. Poços em propriedades que haviam secado apresentam água novamente.

Engenheiro civil, Tikara Okawada relata o trabalho. Ele é diretor do Departamento de Manutenção da Secretaria de Obras e Serviços Públicos da Prefeitura de Limeira. Veja o artigo, que também foi publicado na Revista Citricultura Atual, na edição de maio de 2020.

Conservação Rural das Estradas e das Nascentes de Água – Detenção das Águas em Bacias: como tem sido feito em Limeira

Este artigo tem como objetivo informar aos leitores um pouco de experiência adquirida em relação ao tema, atuando como profissional na área de manutenção ao longo de 14 anos na Prefeitura Municipal de Limeira.

Obviamente tal experiência foi adquirida através de outros profissionais, participação em treinamentos e durante os trabalhos com a equipe na manutenção de estradas rurais.

As bacias de detenção, conhecidas na região de Limeira como “cacimbas”, são executadas às margens de estradas rurais de terra batida ou asfaltadas, visando, principalmente, à infiltração das águas de chuva no solo alimentando o lençol freático, à redução de carreamento de solo e resíduos diversos para as nascentes e corpos d’água reduzindo o assoreamento, à redução de erosões, o aumento da durabilidade das estradas em boas condições por maior tempo facilitando o escoamento de produtos e insunos e reduzindo os gastos com a manutenção.

Há relatos de proprietários agrícolas residentes na região da Bacia do Pinhal que após a construção de bacias de detenção nas proximidades de sua propriedade um poço caipira que estava seco voltou a ter água. Com certeza as águas armazenadas infiltram no solo e, com isso, houve a recarga do lençol freático.

Até meados do ano de 2012 Limeira possuía apenas pouco mais de 250 bacias de detenção distribuídas em diversas estradas rurais. Isso deve-se ao fato de que muitos proprietários agrícolas lindeiros dificultavam a construção de bacias de detenção alegando a perda de espaço para o plantio.

Através do trabalho de conscientização de nossos servidores de campo ao longo do tempo os mesmos proprietários foram convencendo-se da importância das bacias de detenção, pois, perceberam com os próprios olhos que estradas com essas bacias permaneciam em boas condições de trânsito por um período maior mesmo em épocas de chuvas e, atualmente, muitos desses proprietários têm solicitado a construção de bacias de detenção em suas propriedades.

Com a intensificação das ações a partir de meados de 2012, atualmente existem mais de 1.100 bacias de detenção no Município de Limeira, sendo que mais da metade dessas bacias estão na região da Bacia do Pinhal onde está localizada uma das importantes fontes de água do Município.

A Bacia do Pinhal é constituída pelo Ribeirão do Pinhal onde a maioria de seus afluentes nascem no Município de Limeira, daí a sua importância para a população limeirense.

Bacias de detenção no Bairro do Tatu (foto:Prefeitura de Limeira)

A título de sugestão segue o método de dimensionamento de bacias de detenção simplificado adotado no Município de Limeira.

 

As bacias de detenção são executados em geral com o formato circular com diâmetro médio de 7 metros (R = 3,5 m) na parte superior, com profundidade média útil (h) de 2 metros e diâmetro médio de 3 metros (r = 1,5 m) no fundo com inclinação média das paredes (barrancos) de 45°. Ou seja, é um tronco de cone invertido, cujo volume pode ser obtido analiticamente através da fórmula matemática:

V = π.h/3x(R²+R.r+r²), onde:

V = volume; π = 3,1415;

R = raio maior (3,5 m); r = raio menor (1,5 m); h=altura útil (2 m).

 

 

Colocando as medidas na fórmula:

V = 3,1415x2/3x[(3,5)²+3,5.1,5+(1,5)²]

V = 41,35 m³ ou 41.350 litros

Considerando um trecho de estrada de terra de 1.000 m de extensão com 10 m de largura de contribuição e uma precipitação de 100 mm (0,10 m) e considerando que praticamente toda água escoe superficialmente (é o que acontece quando o solo fica saturado):

V = 1000x10x0,1 = 1.000 m³ ou 1.000.000 de litros

 

Quantidade de bacias no trecho de 1.000 m = 1.000 m³/41,35 m³ =24 bacias.

 

Considerando 2 bacias uma em frente à outra serão 12 pares de bacias.

 

Dividindo o trecho de 1.000 m por 12 (nº de pares de bacias) obtém a distância entre pares de bacias:

Distância entre pares de bacias = 1.000/12 = 83 metros.

 

Neste exemplo seria adotada a distância de 80 metros entre bacias de detenção.

 

Na prática adota-se a distância de 80 metros como sendo a máxima, pois, em trechos em aclive muito acentuado são adotadas distâncias menores de até 50 metros.

Não há restrição quanto ao formato das bacias de detenção podendo ser quadradas, retangulares e outros formatos adequando às características do local, porém, as paredes (barrancos) deverão ser executados com a inclinação de até 45º para evitar o deslisamento (desbarrancamento).

 

O equipamento utilizado para a abertura e limpeza de bacias de detenção é a escavadeira hidráulica. O modelo 315 da Caterpillar ou similar atende à necessidade.

Para a limpeza das entradas das bacias e para a execução de saídas laterais (‘bigodes”) pode ser utilizada a retroescavadeira ou a motoniveladora dependendo da situação.

Uma escavadeira hidráulica custa para a Prefeitura de Limeira cerca de R$2.100,00 ao dia incluindo o operador e transporte.

Uma escavadeira consegue construir em média 6 bacias de detenção ao dia numa mesma estrada.

Assim sendo, o custo unitário médio da bacia de detenção é: R$2.100/6 = R$350,00.

O custo unitário para a limpeza da bacia de detenção pode ser considerado a metade, ou seja, R$175,00, porém, este valor pode variar quando o material retirado da bacia necessitar de descarte havendo neste caso o custo do transporte para acrescentar.

 

A limpeza das bacias de detenção é muito importante e é recomendável que se faça pelo menos a cada 2 anos, sendo o ideal uma vez ao ano em época de poucas chuvas, visto que as bacias captam águas barrentas e com o tempo o fundo torna-se quase impermeável reduzindo sobremaneira a eficácia do processo de infiltração da água no solo.

 

A execução de bacias de detenção segue a Lei Municipal nº 3219/200 e as Leis Estaduais nº 6171/1988 e 8421/1993.

A Lei Municipal nº 3877/2004 instituiu a Política Municipal de Recursos Hídricos.

O Artigo 6º da Lei Municipal nº 3219/2000 diz: “Todas as propriedades agrícolas ou não, públicas ou privadas, ficam obrigadas a receber as águas de escoamento das estradas, desde que tecnicamente conduzidas, podendo essas águas atravessar tantas quantas forem as outras propriedades a jusante, até que sejam moderadamente absorvidas pelas terras ou o seu excesso despejado em manancial receptor, sendo certo que, em hipótese alguma, haverá indenização pela área ocupada pelos canais de escoamento do prado escoadouro, revestido especialmente para esse fim.”

Recomenda-se que embora haja o amparo da Lei, deve-se procurar o diálogo com os proprietários lindeiros ao executar as bacias de detenção, sempre que possível e evitar a construção de bacias de detenção muito próximo de residências por questão de segurança.

Bacia de detenção no Bairro dos Pereiras (foto:Prefeitura de Limeira)

 

É recomendável que as bacias de detenção, sempre que possível, sejam construídas uma de frente com a outra executando os “camalhões” (uma espécie de lombada) para direcionar as águas para a bacia.

 

Tikara Okawada é Engenheiro Civil e Diretor do Departamento de Manutenção da Secretaria de Obras e Serviços Públicos da Prefeitura Municipal de Limeira.

 


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